Estávamos a ser seguidos

Uma das nossas funções durante a noite era fazer rondas nos clientes da empresa. Este é o melhor momento para quem gosta da noite, do sossego e do ar livre, independentemente se estamos no Inverno ou no Verão. No Inverno aprendemos a gostar do frio e no Verão desfrutamos  do fresco.

Um dos clientes ficava numa encosta do Alto Douro Vinhateiro, numa encosta que terminava mesmo ao lado do Rio Douro. Era uma propriedade enorme e havia necessidade de verificar vários pontos, demorávamos 1 hora e 45 minutos e caminhávamos entre zonas de mata e vinha.

Era o silêncio absoluto no meio da escuridão, apenas interrompido pelo som da gravilha a estalar debaixo dos nossos passos e de vez em quando o piar de uma coruja. Do outro lado do rio, por vezes víamos os faróis de um carro que rapidamente mudavam de direcção e desapareciam. 

Éramos só nós…

O céu carregado de estrelas era o nosso telhado e as noites de lua cheia tinham um brilho especial. 

Foi numa dessas noites de lua cheia, enquanto descíamos da zona mais elevada da propriedade, que senti algo estranho enquanto caminhávamos. A lanterna não nos fazia falta, tínhamos a luz da lua e além disso eu confiava cegamente em ti, eras tu quem me guiava pela noite, os teus olhos e o teu faro viam o que fosse preciso ver.

Caminhávamos tranquilamente e senti alguma coisa diferente, como se fosse uma presença, olhei para ti mas não disseste nada, continuamos e passado algum tempo tive a mesma sensação, era como se nos estivessem a seguir…mas tu nada, continuavas a caminhar.

Esta sensação repetiu-se mais duas ou três vezes. Então pensei, “são coisas da minha cabeça”…

A certa altura, ao ter novamente a mesma sensação, olhei para o céu e entre nós e a lua vi um vulto! Passou mesmo por cima de nós, sem qualquer ruído! Olhei para ti e estavas a olhar para o vulto, depois olhaste para mim, como quem diz “deixa lá isso…” e seguiste. Eu fiquei sem palavras e numa felicidade inexplicável, era um Mocho, estávamos a ser seguidos por um Mocho! 

Acompanhava a nossa caminhada à espera de que algum rato ou outro pequeno animal se mexesse entre a vegetação para fugir de nós e então podia caçá-lo, é a natureza! 

Como era possível estarmos a ser seguidos por um Mocho tão perto e não o ouvirmos? Isto acontece porque os Mochos não fazem qualquer som ao voar, nem o ar a passar entre as penas faz barulho como normalmente se ouve com outras aves. 

Moral desta história: As coisas simples, que para muitos não têm qualquer significado, são as mais valiosas. Para nós tinham um significado ainda maior, eram os nossos momentos de descanso do mundo e acredito que nesses momentos também tu descansavas um pouco. 

Eram noites difíceis, principalmente no Inverno, era o frio, muitos quilómetros, cansaço, sono, as responsabilidades e obrigações das quais não podíamos fugir e o nunca saber o que vinha a seguir, mas éramos felizes…e sabíamos!