A história…

Há quem diga que foi um colega de trabalho, um companheiro, um cão, eu considero-o uma parte de mim. Foram vários anos em que passamos muitas horas juntos, fizemos muitos km, partilhamos muitos momentos. Fomos separados de repente, quando tudo fazia acreditar que ficariamos juntos até ao fim, nunca nos despedimos e por isso acredito que continuas por aqui.

As correcções

Desde o inicio me disseram que o cão nunca pode “levar a melhor”, no treino e na vida a última palavra é do humano! Mas há demasiadas contradições pelo meio. A mais ridícula e que retira a credibilidade a certos métodos de treino e às pessoas que têm o discurso “temos que ser o líder”, “o cão tem que respeitar” e resumindo, o discurso (embora indirecto quando convém) “o cão está abaixo de nós” é a questão das correcções!

Um exemplo prático e demasiado real no caso do Bodan eram as situações em que tinha que fazer ataques ao fato, situações em que não podia reagir a um determinado estimulo ao qual tinha aprendido a reagir, etc.

Funciona assim: Primeiro o cão é ensinado a morder no fato, depois é castigado para largar. Isto é a forma crua de descrever o que se passa, há formas muito elaboradas que disfarçam muito bem o castigo. 

Como é que alguém no seu perfeito juízo estimula o comportamento morder e depois estrangula o cão para e até ele largar? Só alguém que não percebe de comportamento, não percebe de técnicas de treino e não tem respeito pelo cão.

Primeiro: Um cão só escolhe morder quando esgota todas as alternativas para resolver o que vê como ameaça ou problema.

Segundo: O comportamento morder é ensinado provocando medo extremo ao cão. Curiosidade: Os cães que não mordem e entram no chamado estado de desânimo aprendido, são considerados fracos, medrosos e são excluidos. Isto já demonstra que os sujeitos que fazem este tipo de treino não sabem identificar o medo num cão.

Terceiro: Depois de o cão aprender que só depois de morder é que afasta o estimulo que o assusta, morde cada vez mais e além disso reage ao ver o estimulo mesmo que afastado.

Quarto: Depois de morder, está num estado de stress e medo bastante elevados e a adrenalina está a níveis muito acima do normal, apenas quer encontrar a forma de afastar o estimulo. Deixa de responder às ordens que lhe são dadas, normalmente o “larga”, “loss”, etc…

Quinto: O cão é estrangulado até lhe faltar o ar e depois larga. Quando começa a ter resistência ao estrangulamento juntam-se pontapés, murros na cabeça, etc ou passa a usar coleira de picos, com o tempo chega mesmo a ser pendurado pelo pescoço para largar. Quando a coleira de picos já não resulta é muitas vezes substituída por uma coleira de choques. A isto chamam “correcções”.

Depois disto e independentemente da técnica usada para fazer largar, o cão recebe umas festinhas e é chamado de muito lindo! Chama-se reforço positivo, mas falso porque antes já massacraram bastante o cão.

Os craques e entendidos neste treino dizem que um cão que não aguente aquilo nunca passará por ali. Se não identificam o medo porque não percebem de comportamento de cães, como é que são capazes de selecionar um cão para aquele trabalho? Eu consigo facilmente identificar e selecionar um cão para aquele tipo de treino/trabalho: Não há! Um cão que chega ao ponto de morder e ter que ser bastante castigado, (não venham com a palavra corrigido) para largar, não está nem de longe nem de perto mentalmente bem, está num estado de pânico tal, que deixa de ter comportamentos normais e naturais de um cão.

Os entendidos têm muitas teorias sobre correcções, falta-lhes um pequeno detalhe: Nunca experimentaram trabalhar de outra forma, dizem eles (sem ter experimentado) “não resulta”!… Mas acham que funciona bem estimular um cão a ter um comportamento e depois castigá-lo para o parar! Há até aqueles que dizem que “primeiro tem que se abrir a mente do cão para depois voltar a fechar”… Se tivessem um pouco de empatia percebiam a confusão provocada na cabeça do cão.

Era este o tipo de treino e de vida que o Bodan tinhaa e tantos têm. Uma vida de castigos disfarçados de correcções, em nome do que alguém chama de trabalho, treino e ajudar o Homem.