As correcções

Desde o inicio me disseram que o cão nunca pode “levar a melhor”, no treino e na vida a última palavra é do humano! Mas há demasiadas contradições pelo meio. A mais ridícula e que retira a credibilidade a certos métodos de treino e às pessoas que têm o discurso “temos que ser o líder”, “o cão tem que respeitar” e resumindo, o discurso (embora indirecto quando convém) “o cão está abaixo de nós” é a questão das correcções!

Um exemplo prático e demasiado real no caso do Bodan eram as situações em que tinha que fazer ataques ao fato, situações em que não podia reagir a um determinado estimulo ao qual tinha aprendido a reagir, etc.

Funciona assim: Primeiro o cão é ensinado a morder no fato, depois é castigado para largar. Isto é a forma crua de descrever o que se passa, há formas muito elaboradas que disfarçam muito bem o castigo. 

Como é que alguém no seu perfeito juízo estimula o comportamento morder e depois estrangula o cão para e até ele largar? Só alguém que não percebe de comportamento, não percebe de técnicas de treino e não tem respeito pelo cão.

Primeiro: Um cão só escolhe morder quando esgota todas as alternativas para resolver o que vê como ameaça ou problema.

Segundo: O comportamento morder é ensinado provocando medo extremo ao cão. Curiosidade: Os cães que não mordem e entram no chamado estado de desânimo aprendido, são considerados fracos, medrosos e são excluidos. Isto já demonstra que os sujeitos que fazem este tipo de treino não sabem identificar o medo num cão.

Terceiro: Depois de o cão aprender que só depois de morder é que afasta o estimulo que o assusta, morde cada vez mais e além disso reage ao ver o estimulo mesmo que afastado.

Quarto: Depois de morder, está num estado de stress e medo bastante elevados e a adrenalina está a níveis muito acima do normal, apenas quer encontrar a forma de afastar o estimulo. Deixa de responder às ordens que lhe são dadas, normalmente o “larga”, “loss”, etc…

Quinto: O cão é estrangulado até lhe faltar o ar e depois larga. Quando começa a ter resistência ao estrangulamento juntam-se pontapés, murros na cabeça, etc ou passa a usar coleira de picos, com o tempo chega mesmo a ser pendurado pelo pescoço para largar. Quando a coleira de picos já não resulta é muitas vezes substituída por uma coleira de choques. A isto chamam “correcções”.

Depois disto e independentemente da técnica usada para fazer largar, o cão recebe umas festinhas e é chamado de muito lindo! Chama-se reforço positivo, mas falso porque antes já massacraram bastante o cão.

Os craques e entendidos neste treino dizem que um cão que não aguente aquilo nunca passará por ali. Se não identificam o medo porque não percebem de comportamento de cães, como é que são capazes de selecionar um cão para aquele trabalho? Eu consigo facilmente identificar e selecionar um cão para aquele tipo de treino/trabalho: Não há! Um cão que chega ao ponto de morder e ter que ser bastante castigado, (não venham com a palavra corrigido) para largar, não está nem de longe nem de perto mentalmente bem, está num estado de pânico tal, que deixa de ter comportamentos normais e naturais de um cão.

Os entendidos têm muitas teorias sobre correcções, falta-lhes um pequeno detalhe: Nunca experimentaram trabalhar de outra forma, dizem eles (sem ter experimentado) “não resulta”!… Mas acham que funciona bem estimular um cão a ter um comportamento e depois castigá-lo para o parar! Há até aqueles que dizem que “primeiro tem que se abrir a mente do cão para depois voltar a fechar”… Se tivessem um pouco de empatia percebiam a confusão provocada na cabeça do cão.

Era este o tipo de treino e de vida que o Bodan tinhaa e tantos têm. Uma vida de castigos disfarçados de correcções, em nome do que alguém chama de trabalho, treino e ajudar o Homem.